Infecções Respiratórias nas crianças

As infecções das vias respiratórias nas crianças (constipações, pneumonias, bronquiolites, …) são na maior parte das vezes provocadas por vírus e são, provavelmente, as situações que mais frequentemente levam a criança ao médico. Estas infecções são muito mais frequentes no Inverno devido a uma combinação de factores: por um lado, a maioria dos vírus que ataca o sistema respiratório dão-se bem com o clima húmido e frio, que os ajuda a multiplicarem-se; por outro, o regresso ás aulas provoca aglomerados de grupos de crianças em espaços fechados, o que favorece a passagem dos vírus de uma criança para outra, através da respiração.

 

A nossa árvore respiratória, como o seu nome indica, é formada por uma série de ramos, começando pelo mais grosso, a traqueia, passando aos de tamanho intermédio, os brônquios até aos mais fininhos, os bronquíolos, que por sua vez dão origem às folhas, os alvéolos.

As doenças respiratórias não são todas iguais. Existem diversas doenças que podem afectar o sistema respiratório da criança e que têm diferentes tipos de gravidade. A mais frequente e mais inocente é o resfriado ou constipação simples. A criança tem o nariz entupido, com mais ou menos secreções e pode mesmo ter uma pontinha de febre, no início. Se se tratar de uma criança mais pequena, com menos de seis meses, pode ficar muito incomodada pois nessa idade a criança tem dificuldade em respirar pela boca e respira principalmente pelo nariz, ao contrário das crianças mais velhas. A situação dura habitualmente alguns dias, regra geral menos de uma semana, e tudo o que os pais podem fazer é lidar com a situação com tranquilidade e ao mesmo tempo colocar em prática algumas medidas simples. Noutros casos a infecção pode progredir ao longo das vias respiratórias podendo atingir a laringe (laringite), os brônquios (bronquite), bronquíolos (bronquiolite) ou mesmo os pulmões (pneumonia).

Como muitas destas infecções respiratórias são causadas por vírus é frequente ver os pais ficarem desconfiados dos médicos quando estes lhes dizem que o seu filho, que desde á 3 dias tem uma febre baixa, secreções no nariz e recusa alimentar-se, tem apenas uma virose. “Pois, quando não sabem o que é dizem que é uma virose” é um comentário ouvido com muita frequência nas salas de espera dos serviços de urgência pediátrica. Apesar do seu percurso geralmente inocente, em algumas crianças pode evoluir de forma menos agradável. Isto sucede quando as secreções ficam muito tempo acumuladas e são infectadas por uma bactéria. As secreções tornam-se mais espessas e passam de transparentes a amareladas ou esverdeadas, podendo surgir febre alta.

As infecções respiratórias mais frequentes, tal com a constipação, manifestam-se habitualmente por febre baixa (que desaparece facilmente com o uso de antipiréticos), secreções no nariz líquidas e transparentes, tosse seca ou com pequena quantidade de secreções (secreções do nariz que deslizam até à garganta e que são removidas facilmente ao tossir). Geralmente estas crianças brincam normalmente, estão bem-dispostas, comem razoavelmente e quase não parecem doentes.

Nestas situações os pais, tal como em todas as outras situações de infecção respiratória, podem remover as secreções acumuladas no nariz com a ajuda de soro fisiológico e, se necessário, de um aspirador de secreções próprio para o nariz; manter a criança hidratada, através da ingestão de líquidos (ajuda a fluidificar as secreções e facilita a sua remoção) e baixar a febre, se existir, o que é pouco frequente. Nestas situações, geralmente, não é necessário fazer qualquer antibiótico.

Apesar de a maioria destas situações não necessitar de grandes cuidados, é necessário estar sempre atento ao aparecimento de alguns “sinais de alarme” que podem dizer que a doença é mais grave ou que se tornou mais grave. Isso pode acontecer porque a infecção “foi descendo” ao longo das vias respiratórias até atingir os brônquios e pulmões, ou porque surgiu uma infecção por uma bactéria. Regra geral a criança deve ser observada pelo pediatra sempre que tenha aspecto de doente, não quer brincar, não consegue dormir á noite, tem febre alta e que se mantem por mais de 5 dias, tem vómitos persistentes, recusa alimentar-se, tem dificuldade em respirar ou pieira, tem dores no ouvido, quando as secreções tornam-se espessas e esverdeadas e a tosse se agrava de dia para dia ou se mantem por mais de 10 dias.

A bronquiolite é uma infecção respiratória que surge geralmente em crianças com menos de 12 meses de idade. Devido ao facto de surgir em bebés e afectar os pequenos bronquíolos provoca grande dificuldade respiratória e muita ansiedade nos pais. O agente que mais frequentemente causa bronquiolite é um vírus, designado por vírus sincicial respiratório (VSR), típico do Inverno, mas por vezes também pode ser provocada por outros vírus como os adenovírus. O VSR transmite-se através da tosse, dos espirros ou das secreções nasais de uma pessoa infectada. Clinicamente a bronquiolite manifesta-se por dificuldade respiratória, sobretudo á saída do ar (expiração), tosse e pieira (som como um assobio quando a criança respira). Geralmente o tratamento pode ser feito em casa e este passa por manter a criança bem hidratada, desobstruir o nariz e limpar as secreções nasais com soro fisiológico e fazer uma aspiração suave. O pediatra pode prescrever um medicamento para fazer em aerossol ou com a ajuda de uma câmara, durante três a cinco dias.

Numa pneumonia, como acima referido, a infecção passa das vias respiratórias, como os brônquios, para os pulmões. Tal como nas outras infecções respiratórias, a maioria das pneumonias são provocadas por vírus. O diagnóstico certo só pode ser dado pelo médico após auscultar a criança, e caso existam dúvidas pode haver a necessidade de fazer uma radiografia ao tórax ou análises ao sangue. O tratamento da pneumonia consiste, tal como já referido, em baixar a febre e hidratar a criança. Só se existir evidência clinica de que a criança tem uma infecção bacteriana se justifica o tratamento com antibióticos.

As infecções respiratórias são muito frequentes nesta altura do ano. Os pais devem ter presentes dois factos fundamentais que os poderão sossegar: a maioria destas infecções são causadas por vírus (viroses) e apenas levam a criança e a família a passarem um mau bocado, geralmente sem outras consequências. Estas infecções podem e devem ser prevenidas com medidas simples, mas isso será assunto numa próxima crónica.

Publicado na edição de 16.02.2011 do Jornal Expresso do Ave

 

 

As Infecções Respiratórias podem ser prevenidas?
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As infecções das vias respiratórias, muito frequentes na infância, podem ter complicações muito graves mesmo em crianças consideradas saudáveis, em especial as que são provocadas pelo vírus sincicial respiratório (VSR). Dentro da faixa populacional afectada pelo VSR, as crianças com menos de 1 ano de idade encontram-se entre as mais afectadas.

Os vírus transmitem-se através do contacto directo com um objecto contaminado ou de criança a criança, ou de adulto para a criança, por gotículas projectadas para o ar quando se tosse ou espirra.

As infecções por vírus respiratórios nas crianças podem e devem ser prevenidas com medidas simples, mas eficazes:

1. Mantenha uma higiene pessoal adequada.

2. Areje a casa todos os dias.


3. Lave as mãos com regularidade, de modo a mantê-las sempre limpas, em particular após assoar ou tocar o nariz, depois de usar a casa de banho ou trocar a fralda ao seu bebé, antes de se alimentar ou de preparar alimentos e depois de contactar com uma pessoa doente.


4. Cubra a boca e o nariz sempre que espirrar ou tossir, de preferência com um lenço de papel. Se não tiver um lenço de papel pode tossir ou espirrar para a parte superior do braço, não para as mãos. Deite os lenços de papel no lixo.


5. Evite que o seu filho adquira o hábito de levar a mão à boca ou ao nariz.


6. Escolha uma dieta saudável e equilibrada, mantendo uma hidratação adequada.


7. Pratique e incentive a prática de exercício físico regular.


8. Descanse e faça o seu filho descansar o suficiente.


9. Proteja o seu filho do frio. Utilize a roupa e agasalhos suficientes e adequados à temperatura ambiente. Evitar mudanças bruscas de temperatura e locais excessivamente aquecidos.


10. Evite andar com o seu filho em locais fechados na presença de muitas pessoas (crianças ou adultos) pois é principalmente nestes locais que se faz a transmissão dos vírus respiratórios.


11. Não fume perto das crianças (a inalação passiva de fumo de cigarro aumenta a frequência e a gravidade das constipações, tosse, infecções de ouvido, infecções dos seios nasais, laringites e asma).


12. Se possível, não deixe o seu filho em instituições que mantêm muitas crianças em contacto umas com as outras em salas fechadas, como infantários ou creches superlotados. No primeiro ano de vida (e de preferência nos 2 primeiros anos) o lugar do bebé deve ser em casa (dos pais, avós ou de uma ama que cuide de poucas crianças). Evite o contacto do seu filho com crianças ou adultos doentes. Por vezes isso torna-se impossível, principalmente quando os adultos doentes são os pais e as crianças engripadas os irmãos.


13. Quando estiver doente, mantenha distância das outras pessoas para evitar a transmissão dos germes.


14. Mesmo quando aparentemente saudável, tenha muito cuidado com os “beijinhos e abraços”! Os vírus e as bactérias podem transmitir-se por contacto próximo, por vezes a partir de alguém assintomático. Se tiver contacto com bebés muito pequenos, lave as mãos antes de pegar neles e evite um contacto muito próximo, principalmente de outras crianças.


15. Lave/desinfecte com regularidade os brinquedos.


É muito importante ensinar às crianças estas medidas, bem como supervisioná-las. Lembre-se que algumas crianças têm uma maior tendência para adoecerem, como é o caso das crianças com displasia brocopulmunar (muito frequente nos recém nascidos prematuros), com asma, fibrose quística, diabetes ou das portadoras de Trissomia 21 (síndrome de Down). Fale com o seu pediatra sobre este assunto de modo a prevenir as infecções virais eficazmente.

Concluindo, as infecções respiratórias com todas estas medidas, podem ser prevenidas e, como diz o ditado popular, “mais vale prevenir que remediar”!…
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Publicado na edição de 9.03.2011 do Jornal Expresso do Ave