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Tornar-se pais de um bebé prematuro, apesar dos desafios únicos que coloca, representa também uma oportunidade de crescimento e desenvolvimento enquanto pessoa e enquanto progenitor.

Quando um bebé nasce prematuramente, os pais iniciam uma caminhada com um ponto de chegada incerto, ao longo da qual se irão defrontar com muitos desafios, tais como: abandonar algumas expectativas planeadas ao longo da gravidez, adaptar-se a uma situação adversa, reconstruir sonhos e projectos. Neste processo de adaptação serão chamados a gerir emoções intensas, desenvolver a sua identidade enquanto pais em circunstâncias peculiares, e a cuidar das relações já existentes (com o cônjuge, com outros filhos, com familiares, ...) em condições, muitas das vezes, marcadas pela imprevisibilidade e insegurança.

 

Ao longo da gravidez tudo é planeado pelos pais, desde o parto até aos primeiros dias em casa com o bebé. É frequente imaginar o bebé bonito, saudável e robusto, confortavelmente aninhado nos braços dos pais… Este processo de antecipação é uma parte importante da preparação psicológica para o desempenho dos papeis de mãe e de pai; no entanto, quando surgem situações de risco, mais ou menos súbitas e quase sempre inesperadas, as assumpções formuladas são postas em causa, e o confronto com a realidade pode revelar-se doloroso e muito traumático. Um parto pré-termo confronta a maioria dos casais com um desafio à crença comum de que ter “todos os cuidados” e “fazer tudo bem” assegura bons resultados – nomeadamente, uma gravidez tranquila e a garantia de um bebé saudável… Afinal, coisas negativas podem acontecer a qualquer um, por mais cuidadoso e cumpridor que seja, e perante a crise é comum que os pais se sintam desapontados e inseguros. Como na maior parte das vezes não se chega a uma explicação concreta para a ocorrência do parto pré-termo, ou das circunstâncias médicas que a ele conduziram, podem surgir nos pais fortes sentimentos de culpa, associados à sensação de que poderiam “ter feito mais” para evitar o sucedido – o que na realidade não seria possível.


A adaptação dos pais pode ocorrer num contínuo entre dois extremos de sentimentos opostos: num extremo temos o sentimento de culpabilidade que se manifesta numa exclusividade de dedicação ao bebé, podendo conduzir a formas de interacção menos adequadas com o resto da familia, ou então, num outro extremo, temos a rejeição ao bebé, com impulso irresistivel de negação da sua relação com a criança ou das necessidades desta.


Quando os pais conhecem o seu bebé na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais (UCIN) encontram-no geralmente dentro de uma incubadora, rodeado de fios, sondas e monitores. São comuns sentimentos de ansiedade, confusão e angústia – e mesmo de desapontamento, face a um bebé cujo aspecto físico é bastante diferente do imaginado. O ambiente de complexidade tecnológica pode acentuar a percepção de fragilidade do bebé e a sensação de impotência para lhe ser útil, e os pais são assaltados por dúvidas acerca da sobrevivência do bebé, do seu desenvolvimento futuro, e de como cuidar de um ser tão pequeno e indefeso.


Muitas das vezes, os pais evitam o mais possível visitar o bebé na UCIN, pois temem vir a perdê-lo. Lidar com a incerteza é das tarefas mais difíceis de cumprir nesta caminhada. Mesmo quando o acompanham na UCIN, é frequente terem, inicialmente, receio em tocar-lhe, para não o perturbar ou prejudicar. Com o decorrer do tempo e com o natural envolvimento dos pais no dia-a-dia do seu filho esse medo/receio vai-se atenuando e no final do internamento já são capazes de lhes prestar todos os cuidados necessários.


Lidar com familiares e amigos, e particularmente com outros filhos coloca também desafios diferentes no caso de um nascimento prematuro. Às felicitações pelo nascimento associam-se as reticências e hesitações pela incerta evolução do bebé, o que pode causar algum constrangimento mútuo, que deve ser mencionado e esclarecido abertamente. O internamento na UCIN também implica que a restante família e amigos não poderão ver o bebé nos dias ou semanas que se seguem ao parto, o que dificulta a validação do nascimento, e a compreensão demonstrada em relação aos receios manifestados pelos pais.


É muito difícil prever a duração do internamento de um bebé prematuro, pois cada caso é um caso, e tem uma evolução própria. Esta pode ir de dias/semanas a meses e depende de diversos factores, tais como, a idade gestacional, peso, complicações que possam ocorrer, ...


Ao longo da permanência na UCIN, há estratégias que podem facilitar a manutenção da resistência pessoal dos pais, ajudando-os a lidar com a situação. Essas estratégias devem ser definidas individualmente; no entanto ficam aqui algumas dicas que podem ajudar a manter alguma estabilidade ao longo desta “viagem” – porque cuidar bem de si é uma outra forma de ajudar a cuidar do seu bebé!


Higiene de sono e alimentação – Num período que pode implicar um grande desgaste, tentar descansar o suficiente e fazer uma alimentação saudável é fundamental. É muito fácil para os pais esquecerem as suas necessidades devido à preocupação com o bebé, mas cuidar bem de si mesmos resultará numa maior capacidade para acompanhar o filho. Caso sinta que não consegue dormir, ou descansar o suficiente, fale com a equipa clinica.


Estabelecer uma rotina – As mães que permanecem na UCIN, em pouco tempo ficam a conhecer as rotinas do serviço, e os momentos em que podem colaborar nos cuidados ao bebé. Porém, devem tentar estabelecer também um horário para o resto do seu dia, contemplando momentos para descansar, envolver-se em actividades que ajudem a distrair e relaxar (leitura, lavores, televisão, caminhar...), atender a assuntos urgentes, etc. Nem sempre é fácil conseguir um equilíbrio entre o acompanhamento do bebé e a vida familiar (e, sobretudo no caso do pai, também da vida profissional). O acompanhamento do bebé não exige nem aconselha 24 horas por dia junto a ele; assim, a mãe pode sempre ausentar-se por alguns períodos da UCIN, indo a casa, para que possa descansar, ou dar atenção aos outros membros da família (como outros filhos) – o seu bebé precisa dos pais, claro, mas pequenas pausas podem proporcionar a renovação necessária para prosseguir.

 
Manter um diário – Pode ser útil manter um diário escrito da experiência na UCIN; pode fazer registos dos momentos importantes para o bebé, e registar também as situações que ocorrem, os pensamentos e emoções… Escrever acerca dos sentimentos pode ajudar a lidar com eles e a ultrapassá-los, facilitando o ajustamento. Outra utilidade do diário está em poder registar nele as dúvidas e questões, e também as respostas que obtém junto dos profissionais de saúde – podem vir a ser úteis posteriormente, ou até mesmo depois do regresso a casa.

Mobilizar recursos, e aceitar ajuda – Nesta fase, o auxílio de outros familiares e amigos pode ser precioso; é importante ser concreto e fazer-lhes saber como podem auxiliar, aceitando as ofertas de ajuda que possam ser úteis, de modo a que os pais se preservem para as tarefas indispensáveis, como o acompanhamento do seu bebé. 
    
Rede de contactos
– A partilha de experiências com outros pais que estão a passar, ou já passaram, por situações semelhantes pode ser uma boa fonte de suporte. Começa a haver em alguns serviços de Neonatologia associações de pais que prestam esse apoio – informe-se com a sua equipa clínica. Por outro lado, tentar manter algum contacto com amigos e outras pessoas significativas, pode ser também fonte de suporte e alívio.
    
Expressão emocional – Nesta situação, os pais têm o direito de chorar, ter medo, raiva, ou sentir-se frustrados e exaustos… exprimir as emoções não significa “ser fraco” ou  ficar em risco de perder o controlo; pelo contrário, pode facilitar a compreensão mútua entre o casal, e ajudar estabilizar o estado de humor e a encontrar apoio junto dos profissionais de saúde.
    
Acompanhamento psicológico – Procurar ajuda junto de profissionais especializados pode ajudar na reestruturação da resistência pessoal e no estabelecer de estratégias mais indicadas para lidar com a situação.