A Dor da Alegria


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O Virgílio nasceu em Fevereiro de 2009 com 23 semanas e 5 dias de gestação e com 480 gramas de peso.

 

 

 

 

 Este é o testemunho da mãe do Virgílio:

virgilio_2"Olá a todos,
Passados 2 anos, ganhei coragem e finalmente vou contar a História do meu Príncipe, que nasceu com 23 semanas.
Chamo-me Teresa Brandão, tenho uma filha com 10 anos que se chama Ana Sofia e o meu pequenino chama-se Virgílio.
A minha gravidez foi planeada, e antes de engravidar fiz todos os exames que deveria fazer, era seguida por um excelente médico (Dr. Lemos), já na primeira gravidez foi ele que me seguiu até ao fim e correu sempre tudo bem.
Quando fui à consulta pela 2ª vez (em 09/10/2008), o meu médico disse-me que estava tudo bem, mas tinha uma noticia para me dar. Eu fiquei um pouco assustada, então ele disse-me: «não tens um bebé, tens dois, são gémeos, mas estão os dois juntinhos na mesma placenta, são gémeos verdadeiros». Eu aovirgilio_4 ouvir fiquei sem palavras, mas depois fiquei super contente, porque eu sempre quis ter 3 filhos e Deus estava a concretizar o meu sonho.
 
Quando saí do consultório, liguei logo para o meu marido, e ele nem queria acreditar, ficou muito feliz. Correu sempre tudo bem, até meados de Novembro, quando comecei a ter hemorragias, o médico disse-me que eu tinha a placenta descolada e teria que ter repouso absoluto. Fiquei um mês e meio, mais ou menos, na cama sem me levantar para nada, só quando ia ás consultas é que me levantava. Os meus pais foram para minha casa para cuidarem de mim e da minha filha, pois o meu marido estava no estrangeiro, fizeram tudo por nós. Eu rezava todos os dias para que os meus meninos estivessem bem e para que corresse tudo bem. Antes uma semana do Natal, parou as hemorragias, já estava a placenta colada e os bebés estavam bem. Saí da cama mas, sem poder fazer esforços, tinha muito cuidado, era uma virgilio_3gravidez de alto risco.
No dia 01/02/2009, estava com os meus pais e a minha filha a jantar em casa, quando me deu uma grande vontade de ir á casa de banho (fazer um xixi), passados 10 minutos outra vez a mesma vontade, eu achei que não era normal liguei para a minha cunhada, para ir comigo ao médico, pois não estava bem.
 
A minha cunhada e o meu irmão vieram a correr, quando eu ao dirigir-me à porta, a bolsa da água rebentou. O meu irmão pegou-me ao colo e deitou-me na cama e o Virgílio nasceu logo, se eu não me tivesse deitado, o meu bebé caía ao chão. Ficamos todos muito assustados sem saber o que fazer. Liguei para o meu médico, e ele ficou sem palavras, depois perguntou-me se eu estava sozinha (porque ele sabia que o meu marido não estava cá). Eu disse que estava com a minha cunhada e com a minha mãe, ele disse para desinfectar uma tesoura com álcool, atar uma linha numa e noutra ponta do cordão e cortá-lo, a minha cunhada assim o fez, pegou no meu bebé e embrulhou-o numa mantinha. Depois o Dr. Lemos dissevirgilio_5 para a minha mãe aquecer mantinhas e cobri-lo para não perder a temperatura, e assim foi, sempre a aquecer mantinhas e embrulhar o meu pequenino. Ele era tão pequenino que ainda não tinha os olhinhos abertos, mas tão lindo. Ligava para o Inem e ninguém atendia, ligava para os bombeiros e nada, até que consegui falar com os bombeiros de Riba D’Ave.
 
Depois os bombeiros é que chamaram o médico do Inem.Nunca imaginei um bebé tão pequenino, fiquei com muito medo, porque quando chegou o médico do Inem, disse que era impossível o bebé sobreviver, só se preocupou comigo e com o bebé que estava ainda dentro de mim. Quando fui para a ambulância, o médico colocou o bigode nasal ao Virgílio e disse para eu ter calma, muita força e acima de tudo muita coragem, pois era a primeira vez que ele via um bebé tão pequenino a nascer em casa. Quando chegamos ao  Hospital de Guimarães, estava tudo á nossa espera, levaram o Virgílio para a Neo, o médico que me “socorreu”, dizia-me que não queria que eu sofresse mais, “mãezinha coragem, se precisar de alguma coisa é só dizer”, (excelentes profissionais), “o seu bebé é muito pequenino e muito sensível, passou por algo que nem eu sei descrever, por isso não sei se vai sobreviver, só Deus saberá, tenha fé”.
 
Tiraram-me o meu segundo bebé mas, infelizmente não resistiu. Que sofrimento meu Deus.
 
Quando fui para o quarto, tão triste, só pensava nos meus bebés, como iria ser daqui para a frente, será virgilio_6que o meu pequenino vai sobreviver? Ouvia os outros bebés a chorar ao lado de suas mães e eu não tinha ninguém para me consolar.
No dia seguinte, fui à Neo ver o meu menino, fiquei muito triste, quando vi o meu bebé cheio de fios e máquinas, e tão pequenino e indefeso que ele era, mas tão perfeitinho e tão lindo.

Conheci médicos e enfermeiros muito especiais, que me apoiaram e ajudaram sempre, nos bons e maus momentos, diziam-me sempre “oh mãezinha, tenha coragem, é um dia para a frente, 4 ou 5 dias para trás”.
 
 O Virgílio teve várias complicações durante a sua “estadia” na Neo, teve 2 meses com um ventilador, e 2vrgilio 7 dias precisou de um ventilador de alta frequência, no dia em que foi batizado.
 
Estava eu em casa e ligaram-me a dizer que o Virgílio tinha piorado e estava com um ventilador de alta frequência, provavelmente não aguentava até o dia seguinte. Eu fui logo para o Hospital para estar com ele, foi batizado, chorei tanto,... só pedia a Deus que o ajudasse a recuperar e que nunca o abandonasse. Fui embora tão triste, mas ao mesmo tempo pensava “não pode ser, Deus é tão grande que vai ajudar o meu menino”, e assim foi, de manhã quando voltei ao Hospital, o Virgílio tinha melhorado, ainda precisava do ventilador, mas, estava bem melhor.
 
Embora houvesse dias que o Virgílio estava pior, eu tinha sempre fé que ele iria melhorar, rezava muito e pedia-lhe para que ele aguentasse e resistisse a esta luta, ele parece que me ouvia e tinha muita força de viver.
 
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Os médicos diziam que o Virgílio teve tudo o que um prematuro “tem direito”, teve uma sépsis, uma hemorragia cerebral, uma hemorragia pulmonar, retinopatia da prematuridade... enfim tantas complicações, mas, graças a Deus VENCEU.
Hoje tem 2 anos, é um menino muito esperto, inteligente, saudável e muito activo.
Anda na terapia da fala (intervenção precoce de Famalicão, com a Dra. Luísa) e fisioterapia (na clinica Cuidar Mais em Riba D’Ave, com o Cristiano), são excelentes profissionais. Já anda aos pedacinhos sozinho e fala muito bem.

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Deixo uma mensagem de coragem para todos os pais que passam por situações semelhantes, “espero que tenham muita força e fé, pois Deus existe, cantem e mimem muito os vossos bebés, porque para além deles serem tão pequeninos, sentem que não estão sozinhos. Nunca desanimem, dai-lhes força para continuarem a lutar, pois se vocês estão tristes, os vossos filhos também estarão, sejam fortes e passem a vossa energia para os vossos filhos”.

Deixo um grande abraço, a todos os médicos e enfermeiros do Hospital de Guimarães, pois não há palavras para descrever o que fizeram por nós, são pessoas extraordinárias.
Muito obrigado por tudo
."

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Fotografias cedidas pelos pais do Virgílio