Nascer duas vezes...
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Olá Papás!

 
Somos o Diogo e o João, gémeos verdadeiros, e nascemos na fantástica Maternidade do Hospital de Guimarães.Nascemos com 28 semanas, com pouco mais de 1100 grs cada e com 37 e 40 cm de comprimento.
Estivemos na UCIN durante 48 dias e não tinhamos bochechas, nadegas nem testiculos, somente umafina pele a cobrir os ossinhos do nosso corpo. Não gostavamos de sentir a luz forte nem ruído e nem que mexessem connosco pois ficavamos muito cansados devido ao nosso estado frágil.
A assustadora imensidão de máquinas, fios e tubos eram coisas que aterrorizavam os papás. Nós esqueciamo-nos de respirar e o coração quase que parava de quando em vez. Recebemos transfusões de sangue, tinhamos derrames cerebrais, hérnias umbilicais e nos testiculos e eramos alimentados por umas sondas fininhas que iam até ao estomago (orogástrica). Estivemos com ventilação durante sete dias e pouco a pouco começamos a respirar sozinhos.
Os papás ainda hoje nos dizem que a dor do desconhecido, de que algo nos acontecesse era de tal maneira aterradora que pareciam estar a viver o pior dos pesadelos. A mamã chorava muitas vezes no meio das incubadoras para que ninguém a visse, com a sensação de impotência, de tristeza e medo que nós nos sentissemos sós e por isso sempre que os enfermeiros permitiam ela desinfetava-se muito bem e colocava as mãos dentro da pequena incubadora e tocava-nos delicadamente, susurrando aquelas musicas de embalar que cantava quando estavamos na barriguinha dela.

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Quando passamos para os cuidados intermédios ela ficou a dormir lá todos os dias e logo de manhã dava-nos o banhinho matinal e nós ainda estavamos cheios de fios e mais fios. A pesagem era muito importante para ela, cada 10 ou 20 grs que ganhavamos era uma alegria só, pois era sinónimo de desenvolvimento e era mais um degrau que subiamos para chegar a nossa casa. 
 
Tivemos uma enfermeira que nos ensinou com 1.450grs a mamar na maminha e isso foi fantástico. Conseguimos fazê-lo até aos 12 meses. A mamã estava já muito cansada e a uma certa altura estava a perder o leite, então umas enfermeiras disseram-lhe " Mamã, tem que ir dormir a casa e descançar, vá namorar, passear, e depois volte", e assim foi. Ela chegou com muito mais leitinho e mais feliz e cdescontraida.
 
Depois já em casa e com nove meses ainda não nos sentavamos nem nos encostavamos sozinhos, e os papás pediram ajuda á Terapeuta Drª Ana de Paços de Ferreira. Dois meses depois estavamos já muito independentes, fizemos os três um belo esforço :-)
 
Estavamos a ser seguidos pelo Hospital Maria Pia em Cardiologia, e em finais de 2010 tivemos alta os dois. Agora com quase 3 anos, somos, graças a Deus, saudaveis e as hérnias, derrames, sopros desapareceram.
Ainda hoje os papás ficam com as lágrimas nos olhos quando falam sobre esses momentos tão assustadores, e apesar de já terem passado alguns anos, essas recordações ficaram muito gravadas na vida deles.
 
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Apesar da dor, os papás dizem que sentem "saudades", porque sentiram que nós eramos amados e eles muito acarinhados por aqueles médicos e enfermeiros. Aquelas pessoas vestidas de azul, que os confortaram nos piores momentos. Aquelas pessoas tão especiais, os nossos anjos, os nossos mágicos.
 
Aqueles que não têm noção do quanto ainda são importantes na nossa vida.Porque nós sofremos com o nosso inicio de vida, mas ser papás de bebés prematuros é ser também campeões, por nunca desistir apesar do medo, por nos confortar mesmo estando á espera de serem confortados, por ter vontade de gritar e berrar ao mundo a dor deles e calar e acarinhar-nos sem que transmitam a nós esses sentimentos.
 
Por isso papás de bebés como nós, chorem, alegrem-se, sintam medo. Tudo é natural, mas não se esquecam que nós pequeninos bebés somos fortes e sentimos-vos ao nosso lado, a amarem e a esperarem que fiquemos fortes o sufuciente para ir para casa com voçês.
  
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Os gémeos Diogo e João Leal
Os papás Felicidade e João Leal
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Um amor especial aos enfermeiros Paulo, Mónica, Fernando, Cátia, Jacinta.

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Fotografias cedidas pelos pais do Diogo e do João