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A Mariana nasceu em Maio de 2008 com 25 semanas de gestação e com 410 gramas de peso.

 

 
Este é o testemunho da mãe da Mariana:

mariana_2"A Mariana, era uma bebé muito desejada. Depois de 2 anos à espera para engravidar, com consultas de infertilidade e muitos exames pelo meio, a especialista de infertilidade que nos seguia, dizia que seria impossível eu engravidar, então marcamos uma laparoscopia para Janeiro de 2007 para retirar a endometriose. Engravidei em Dezembro de 2006, uma grande alegria, um milagre.

Passei o 1ºtrimestre com todos os cuidados e mais alguns, quando ultrapassei as 15 semanas respirei de alívio, mas foi a partir dai que tudo começou a correr mal. Tinha, segundo os médicos, o colo do útero muito sensível, fazia muitas hemorragias, repouso e mais repouso. Por volta das 18 semanas no rasteio do 2ª trimestre deu risco elevado para Trissomia 21 e defeitos do tubo neural, então lá tivemos que fazer amiocentese. Foi um desespero pela espera dos resultados, felizmente deu tudo negativo, mas os problemas continuavam. Muitas idas ao médico, às urgências, continuava com hemorragias. Depois começaram a dizer que tinha pouco liquido, repouso e mais repouso… Ás 23 semanas rebentou-me a bolsa das águas e perdi o líquido todo, fomos para a urgência já a imaginar qual o desfecho, completamente desesperada…a médica que nos atendeu disse logo que não havia hipótese nenhuma, que iria abortar, fiquei doida. Não podia acreditar que iria perder a minha filha, mas com 23 semanas não há esperança de sobrevivência nenhuma. Fiquei internada e foi-me detectada uma infecção, que nunca ninguém entendeu de onde vinha ou porque existia, mas sempre suspeitei da amiocentese… Nos dois primeiros dias só me davam calmantes e antibióticos e enviavam-me psicólogos e psiquiatras para me preparar para o pior; e pergunto como se prepara uma mãe para perder um filho, que ainda não mariana_3nasceu, mas que amava mais do que tudo. Era um pesadelo, todo o meu sonho se desvanecia.

Vivi aqueles dias como quem vive em cima do fio da navalha. Se a infecção subisse ou não cedesse teriam que me tirar a minha bebé, porque eu morreria de sépsis, ou se entra-se em trabalho de parto também perdia a minha bebé, porque não tinha maturidade para sobreviver. Faziam-me ecografias e estava tudo igual, todo o líquido que ela produzia perdia, porque a ruptura da bolsa era muito baixa. Os médicos aconselhavam-me a andar para abortar porque mesmo que ela aguentasse mais algum tempo, iria ficar com muitos problemas porque estava colada à placenta, iria nascer com deformações, sem capacidade para respirar etc…. Mas eu sempre me recusei a desistir e dizia enquanto ela aguentar e também aguento… E lá fomos andando, os dias passavam devagar, com uma lentidão que até doía. Não me levantava da cama para nada Quando chegamos às 24 semanas os médicos disseram; agora vamos apostar nessa bebé. Fiquei tão feliz, porque naquele momento não era só eu a acreditar nela, mas também os médicos, por mais pequena que fosse a hipótese de ela sobreviver, pelo menos poderia me agarrar a uma esperança, muito ténue.

Ela aguentou até às 25 semanas e 4 dias, e ai entrei em trabalho de parto. Ela estava em sofrimento, tinha que nascer. Os médicos deram-me a escolher entre uma cesariana e um parto normal, eu respondi que queria aquilo que fosse melhor para a minha filha, mas aquilo que me disseram é que ela não ia nascer viva, por isso para eu escolher. Então optei por um parto normal. Liguei ao meu marido à meia-noite a dizer que a bebé ia nascer, e assim foi, apesar das doses de epidural que me deram não faziam efeito, porque psicologicamente estava muito alterada. Ela nasceu no dia 19 de Maio às 9,50 h com 410 gramas, 27 cm e chorou, a minha filha estava viva… A enfermeira mostrou-ma e levaram-na logo para o serviço de neonatologia.

Daqui para a frente começava outra guerra, ainda pior que a anterior. Era meio-dia quando me levantei ao fim daqueles dias todos e depois de um parto e fui ver a minha filha a Neo. Quando a vi tão pequenina, tão desidratada, tantas máquinas, tanta gente, tanto aparato… ia desmaiando… pensei que seria impossível. Nunca a imaginei tão pequena.

mariana_4O cenário era péssimo, os médicos diziam que era extremamente prematura e de extremo baixo peso, que não poderiam fazer prognósticos só o tempo o diria. A Mariana estava ventilada, sedada, cheia de máquinas e fios, cateteres, numa mesa de reanimação. Aquele ser tão indefeso, sozinha. Não podia pegar nela, só tocar-lhe às vezes. Só me restava rezar e pedir a Deus que não me levasse a minha menina. Também pedia muito à Mariana para se agarrar à vida, porque nós a amávamos muito. Só quem passou por situações idênticas à nossa è que poderá entender aquilo que nós sentimos, uma angústia, impotência, desespero, frustração, medo….

Os primeiros 12 dias correram até com relativa calma, depois começou a ter mais necessidade de oxigénio apesar de estar ventilada, ganhou uma pneumonia nos dois pulmões, os antibióticos não faziam efeito. Os médicos disseram que ela não iria ultrapassar, mas alguns dias depois já tinha deixado o ventilador contra todas as expectativas. Ela tinha vencido mais uma batalha.

Entretanto já tinha 800 gramas. Mais um problema, ganhou uma Nec, para quem não sabe é uma infecção grave no intestino, devido à prematuridade dos órgãos. Então teve que ser transferida para o hospital de S.João, onde foi ao bloco operatório para colocar um cateter central, só assim a poderiam alimentar e administrar a medicação. Felizmente não foi necessário operar o intestino, o antibiótico foi suficiente. Regressamos ao Hospital de São Marcos, outra vez ventilada a recuperar da cirurgia. Daqui em diante foi tudo muito lento, uns dias melhores outros piores, ganhava pouco peso, mais uns sustos pelo caminho, 79 dias após o seu nascimento a Mariana deixou os cuidados intensivos, mas ainda ficamos mais 21 dias nos cuidados intermédios, teria que aprender a viver sem oxigénio suplementar, aprender a comer e esperar pelos 2 kg para poder vir para casa.

Quando atingiu os objectivos, a equipa deu alta à Mariana. Eu sentia um misto de alegria e medo, muito medo, porque cuidar de um bebé assim, sozinha em casa, fazia-me muito medo. Em casa não tinha médicos, enfermeiros, toda aquela equipa fantástica, incansável, que para mim é a melhor do mundo, porque conseguiram salvar a minha menina.

Em casa as coisas até correram relativamente bem, mas os medos continuavam. A Mariana tinha ser muito seguida pelos médicos especialistas, tendo sempre nós muita consciência de que os cuidados da Mariana teriam que especiais, muito especiais. A vida toda passou a ser em função da Mariana.

Hoje, dois anos e meio depois, estou em condições de afirmar que a minha filha é uma criança absolutamente normal, saudável, com o desenvolvimento psico-motor adequado para a idade, é o orgulho dos pais e a luz dos meus olhos."

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Fotografias cedidas pelos pais da Mariana