Testemunho de uma mãe de gémeos num serviço de Neonatologia:

"Sou mãe de gémeos gerados por FIV, nasceram "prematuros" com 36 semanas de gestação, de cesariana electiva. Eram grandes (a menina tinha 2510 grs, e 48 cm de comprimento, o menino 2370 grs e 49 cm de comprimento), nada fazia prever que necessitariam de cuidados neonatais, em todo caso assim foi...
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Estiveram uma semana na Neonatologia, 3 dias dos  quais  na  UCIN (Maternidade Júlio Dinis),  para além de terem estado a receber oxigénio por campânula, foi-lhes detectado uma sépsis e estiveram a fazer antibiótico durante 15 dias.

Durante o tempo que estivemos na Neonatologia, posso dizer que aprendi  muita coisa. De facto, só quem  passa  por  um serviço destes, tem noção de como é possível a vida humana ser ao mesmo tempo tão frágil e tão resistente.
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Com os pipizes fora de perigo, pude "relaxar" um pouco mais, e pude começar a olhar ao que se passava à minha volta. Aos outros pais que ali estavam horas a fio, como eu, a guardar as incubadoras dos seus  bebés. O que vi, deixou-me estarrecida. Existiam ali seres humanos tão, mas tão pequenos que julgava não ser possível existirem, quanto mais estarem vivos.
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Bebés nascidos com 26, 28, 30 semanas de  gestação, uns  ventilados  e cheios  de tubos e sensores,  outros somente com tubos e sondas... Impressionante, os meus perto daqueles eram uns gigantes e estavam definitivamente desenquadrados, e o meu sofrimento perto daqueles pais que ali viam os  seus pequenos filhos a lutarem desesperadamente pela vida, um  dia atrás do outro, uma semana atrás de outra era pequeno, muito pequeno.

Quem já passou algumas horas num serviço de neonatologia sabe que naquelas horas “mortas”, em  que os bebés estão todos a dormir, aquele zumbido das incubadoras é bastante relxante para quem  anda esgotado, e ao olharmos  os  bebés adormecidos, ao sentirmos o calorzinho da sala e ouvirmos aquele barulho, só apetece deitar e dormir também.
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Nas horas das mamadas tudo se altera, o serviço parece uma colmeia que ganha vida de repente. Acendem-se as luzes, ouve-se o choro dos bebés, e vê-se uma grande azáfama de volta das  incubadoras. Na maior parte estão lá as mães, ou os pais, ou ambos. No entanto existem aqueles abandonados pela vida e sorte que estão sózinhos, ao cuidado das enfermeiras, e que sózinhos  permanecem durant e horas e  dias, porque  ninguém  está para perder  grande  tempo  de  volta  deles,  são condenados… Até para nascer é preciso sorte.
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Durante os dias que por lá estive, existiram alguns episódios que me marcaram, falarei apenas de  alguns para não  ser exaustiva, porque poderia falar de eventos mais ou menos agradáveis durante horas a fio.
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A Isabelinha era uma menina nascida com 29 semanas de gestação, já estava lá no serviço há  1  mês  quando  entraram  os gémeos. Nasceu com 850 gramas de  peso. Na altura estava já com  1300 grs. A mãe da Isabelinha era daquelas que  estava lá de manhã  à noite, tinha  uma filha de 3 anos  e era a minha  “vizinha da frente”  da M., a Isabelinha  estava bem,  respirava sem nenhum tipo de auxílio e estava só a aprender a “mamar” e a ganhar peso, mesmo assim era pequena, muito pequena. A mãe esforçava-se p or lhe dar os  míseros  20 ml por biberão, mas  ela  raramente conseguia  mamar até ao  fim, o resto  lá tinha de ir pela sonda. Estava lá no dia em que pela primeira vez conseguiu mamar tudo  até ao fim, foi uma alegria…  Estava lá também quando a passaram da incubadora para um berço, outra vitória e outra alegria.
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Outro  bebé  que  estava lá nascido com 26  ou 27 semanas  de gestação, micro, muito micro, não teve a sorte da  Isabelinha, esse  estava noutra  sala, e apesar  de estar lá  já há algum  tempo, o veredicto  não era nada  favorável. Estava  lá por  perto quando  ouvi  a médica  diz er aos  pais  que e le teria  lesões  cerebrais  irreversíveis. Fiquei  gelada, não  consegui evitar  as lágrimas que me começaram  a escorrer pela cara abaixo, fui para as minhas incubadoras e pedi  com todas as minhas forças para nunca ter de ouvir um veredicto daqueles. Não consegui imaginar a dor daqueles pais ao saberem que o seu filho teria à partida, muito poucas chances de ter uma vida normal.
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O caso  que mais me  impressionou foi o da  Inês, menina  nascida com o tempo  de gestação todo mas com  uma deficiência cardíaca grave, teria de ser sujeita a uma  cirurgia de alto risco  que teria de ser  realizada no HSJ, estava ali apenas  a fazer exames  e a curar  uma  infecção  grave  que  tinha  apanhado. Para além do problema cardíaco tinha uma deficiência cromossomática, o que a impediria de, caso sobrevivesse, de vir a ter uma vida normal. Era uma bebé linda, gordinha. Era das abandonadas pela vida e sorte, nunca tinha ninguém com ela. E como se não bastasse o saber que  o mais provável era ter poucos dias de vida, iria ter um sofrimento atroz numa cirurgia (a meu  ver descabida porque sem grandes esperanças), aquela criança só tinha as enfermeiras para tratarem dela. Não  tinha  a mãe nem  o pai, que devem  ter preferido ignorar  os seus problemas do que ficar um dia  atrás do outro ao lado de uma filha que se sabia iria perecer ou na melhor  das hipóteses iria ser um ser dependente e com graves problemas para o resto da vida. Era muito raro aparecerem por lá, acho que só os vi uma vez.
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Tinha uma pena infinita daquela menina, mas  ninguém  se  podia  chegar  perto  dela,  ou  melhor  dizendo, nos  serviços  de neonatologia ninguém pode andar a pairar pelas salas ou ir espreitar as outras incubadoras, temos de nos limitar às nossas, o que é muito correcto. Por isso, todos sabiamos da história da Inês, mas ninguém lhe podia dar um afago de carinho ou sequer ir vê-la ou falar com ela.
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Perante estes cenários acho que me consciencializei  que estava a ser lamechas  demais, os meus  pequenos estavam  bem, eu  dentro  do  possíve l estava a recuperar  bem, e  realmente  dentro de  tudo  o que tinha  acontecido  tinha tido  uma  sorte incrível: Fiz uma FIV, engravidei de gémeos, um rapaz e uma rapariga, consegui aguentar a gestação até ás 36 semanas, tive 2  bebés grandes e  eles estavam ali  “alive and kicking”, e  sobretudo ao que  tudo indicava  saudáveis e muito  perfeitos. Era (sou) de facto uma pessoa com muita sorte.

Dediquei-me  a  gozar  os  meus  bebés,  e  a  apoiar  quem  precisava  do  meu  auxílio. Quem  me  conhece  sabe  que  sou extrovertida  e durante os  dias que  estive  na  neonatologia  e  depois  quando  estive na  fototerapia, conheci  muita gente  e conheci muitas histórias, posso gabar-me, ainda hoje quando vamos à maternidade do pessoal nos vários serviços se lembrar de mim e dos “gémeozinhos” (forma  como eles os  tratavam). As médicas  ainda hoje, quando eles  vão  às  consultas, dizem carinhosamente “os meus gémeozinhos”~.
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Quando saímos da neo, passamos para uma outra sala de  cuidados intermédios, onde estavam os bebés a fazer fototerapia, os bebés que como os nossos  estavam a terminar medicação ou aqueles  bebés que estavam abandonados à espera  que a Segurança Social os encaminhasse. Era a sala onde os bébés  vinham receber os primeiros tratamentos depois de saírem do bloco de partos e antes de serem entregues às mães.
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Felizmente, quando  entramos  estava  só  lá  uma  bebé  a   ganhar  peso,  e  nos dias  seguintes  iam  entrando uns  para  a fototerapia, outros com mazelas pós parto, mas  na generalidade não  estavam lá muitos o que  me deixava mais  sossegada. Primeiro por  causa  das doenças, segundo  porque em termos de segurança, aquilo  era menos  restritivo que  a neo, e tinha medo que alguém “arrancasse” com as minhas pérolas.
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Enquanto lá  estive apareceu  um bebé que foi  abandonado, tinha  2 meses, a  mãe  foi lá levá-lo, porque  ele  estava  com  o rabinho completamente em “carne viva”, e nunca  mais apareceu, o  petiz chamava-se  Ivo, era  louraço de  olhos azuis, muito giro, e berrava como um possesso,  passava o dia a berrar, não  se calava com nada. As enfermeiras  punham-no sem  fralda com pomadinha  e com o  rabinho para o  ar a  apanhar o sol que  entrava pela  janela, para ver  se cicatrizava  o  rabito, mas aquilo devia doer horrores ao petiz.
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Este serviço era menos restritivo que a neo, ali estavam os bercinhos uns ao lado dos outros e iamos vendo e “olhando” pelos outros  bebés  quando as enfermeiras  não estavam  e os  pais também não. Foi ali que dei  banho aos gémeos pela  primeira vez, e foi ali que eles usaram as primeiras  roupinhas, não  as deles, mas as do  hospital porque  não se  podia levar nada  de fora. Daí que andavam  com roupas que eram doadas ao  hospital e com fraldas do tamanho  2 porque eram as que  existiam na maternidade, ainda assim, as enfermeiras sempre que  chegava roupa da lavandaria  deixavam-me escolher as “melhores” e mais bonitas para eles, eram uns doces.

Ali, compreendi também que se luta com dificuldades nas maternidades portuguesas, porque  toda a boa vontade não  chega, e se não fossem donativos de particulares e empresas e do próprio pessoal, aqueles bebés que ali estão internados teriam só “farrapos”  para  vestir  porque  o orçamento não  chega para  comprar roupa para os  bebés,  no entanto, o regulamento  não autoriza os pais a levarem nada…  É irónico. Compreendi também, que muita gente voluntariamente dá dias  da sua vida, que poderiam ser passados de forma vazia, a ajudar a maternidade e aqueles bebés  mais necessitados, fazem-se enxo vais para bebés ali. A mãe que lá chegue sem nada saí de lá com tudo para o bebé, e  infelizmente são muitas. As enfermeiras tiram do seu salário dinheiro para comprar lã, e as voluntárias fazem carapins, casaquinhos e calcinhas para dar aos bebés e para uso geral.
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É incrível a forma carinhosa como os bebés são tratados, já nem falo dos meus porque nós estávamos  lá sempre  metidos  e eles só de  noite é que precisavam de mais atenção por  parte do pessoal de  enfermagem, mas falo  de meninos como o  Ivo por exemplo, posso dizer-vos que  o miúdo berrava , berrava  e berrava, e que nunca ouvi  uma palavra mais exasperada  por parte das enfermeiras, tinham lá uma espreguiçadei ra e estavam sempre a abanar o Ivo enquanto davam o biberão a  outros bebés.


Passados uns dias já  eramos “tu cá tu lá”, e  os  pipizes eram  o  “ai  jesus” do pessoal, eu  já  cirandava por lá  para dar  uns abanões  ao Ivo quando elas estavam  ocupadas  e os  meus  estavam  a dormir  e nas  horas  mortas dávamos  2  dedos  de conversa. Quando  viemos  embora, as  enfermeiras  e  as  voluntárias  ofereceram-nos  uns  carapins  para  cada  um:  “Para recordação” disseram elas… E como recordação  estão guardados junto com as pulseirinhas do nascimento e  as placas  que tinham nas incubadoras a dizer “1 gémeo” e “2 gémeo” e as primeiras roupinhas que eles vestiram por breves instantes.
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Já lá voltei para dar roupas dos pipizes que não servem, e tenciono voltar a  dar mais roupa, porque  está nova e servirá  para vestir bebés que como os meus lá estão internados ou cuja  família tenha  necessidade, e  é  melhor do  que  ficar  a  “mofar” dentro de uma caixa.

De uma coisa tenho a certeza, se tivesse algum tempo livre, era lá ou noutro sítio semelhante que o passaria."

Para concluir gostava de sugerir uma visita ao Blogue onde foi retirado, com autorização da autora, este testemunho.

OBRIGADO!

Ser Prematuro®  2007 - 2017                                                                                                                                              O autor agradece  a colaboração de todos os pais